quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Constelação pós-global, Adorno, Kant e Beethoven

Um dos "improvisos" da primeira parte de Quasi una fantasia, de Adorno trata do encontro entre Beethoven e Kant em Schiller, na Nona Sinfonia, que musicou. com alterações, a "Ode à alegria". Um dos trechos mais conhecidos do coro que encerra a obra, canta-se que acima das estrelas deve morar um Pai Amado. Na tradução de Amancio Cueto Junior, "Irmãos, acima das estrelas do céu/ deve um bondoso Pai morar." Ele deve morar; não se diz, como pode pretender uma tradução equivocada, que ele esteja nessa morada.
Na música, está neste trecho mais lento antes do final. Escolhi esta gravação regida por Gustavo Dudamel e as vozes muito boas do Orfeón Donostiarra:

https://youtu.be/reR6josvHP8?t=3461

O que Adorno diz disso em 1930? O encontro de Beethoven e Kant vai além do "idealismo ético formal". No verso "muss ein lieber Vater wohnen", a ênfase no verbo "muss" levaria a esta consequência:
Deus torna-se mera exigência do sujeito autônomo, que roga ao paraíso estrelado lá no alto por alguma coisa que não parece estar totalmente contida na lei moral. Mas a alegria recusa atender à súplica; a alegria, em vez de se elevar acima do sujeito como uma estrela, é escolhida pelo sujeito de maneira impotente. [tradução de Eduardo Socha, na publicação do livro pela Unesp em 2018]
Esta curiosa superinterpretação de Adorno (as "Götterfunken", centelhas divinas, recebem muito mais ênfase do que aquele verbo na música de Beethoven), que deixa de lado a potência do compositor de criar(-se) um deus por meio da sinfonia, fez-me pensar na União Europeia, que tem como um de seus símbolos o coro que encerra essa obra musical. A escolha pela criação das Comunidades Europeias, nos anos 1950, a partir da Comunidade do Carvão e do Aço em 1951, também teria nascido da "impotência" de Estados que, entre duas superpotências, viram-se forçados a se unir e a deixar de lado divergências históricas?
Por coincidência, eu havia escrito faz um tempo para O desvio das gentes um poema que trata de uma possível impotência de hoje, e com um título que alude a estrelas (parodiando o livro de Habermas, é claro, eu não havia pensado em Beethoven). Transcrevo-o aqui:



Constelação pós-global



I

a luz crepuscular desce sobre a união monetária; tudo está normal, é necessário salvar a moeda, a união monetária passa a emitir o crepúsculo; todos estão preparados, 50% dos desempregados têm mais esperança do que 57% dos empregados; os bancos centrais avaliam os créditos e os fenótipos; os créditos da luz são avaliados pelo crepúsculo da política na união monetária; todos, salvo o crepúsculo, se mostraram incapazes de agir em prol do interesse comum, o crepúsculo entrega-nos os juros da luz que desce sobre o fenótipo da guerra para ver com as janelas trancadas o horizonte da dívida,

a luz crepuscular desce sob a união monetária, os juros ainda permitem aos Estados abrir as urnas e aos mendicantes destapar as latas de lixo, 32% dos vivos têm mais esperança do que 79% dos mortos; de súbito, o horizonte ilumina-se, os juros lançaram bombas.



II


O contrabando de drogas
que estimulam o canibalismo,
nova atividade econômica dos poderes emergentes


Quem compra? Ah, todos que investem em autoconhecimento automático, temos clientes dos
11 aos 80 anos, já podem concorrer ao mundo no mercado global.


Festas com drogas
que estimulam o canibalismo,
tendência em alta nos países centrais


Por causa dos efeitos alucinatórios, alguns tomam o produto e se deitam na rua com mendigos,
temos que reconhecer esse risco; mas, nesse caso, eles quase sempre devoram os mendicantes,
e o risco é superado.


Escritórios de expatriação de capitais
multiplicados pelas drogas
que estimulam o canibalismo,
o sistema se retroalimenta


Devoram mendigos, ou nova forma de vencer a competição pelo mundo no mercado global. 


Canibalismo autoempreendedor
ou diminuição de custos públicos
no policiamento intensivo
na vigilância de fronteiras


III


O país: uma velha que abocanhou o pão

e viu o pão engolir seus dentes




sexta-feira, 12 de julho de 2019

Cosmopolitismo e barbárie II

De Homi Bhabha e da reunião de textos O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses (Rio de Janeiro: Rocco, 2011; org. de Eduardo F. Coutinho, trad. Teresa Dias Carneiro)
Há um tipo de cosmopolitismo global, muito influente no momento, que configura o planeta como um mundo concêntrico de sociedades nacionais se estendendo até vilarejos globais. É um cosmopolitismo de relativa prosperidade e privilégio fundamentado em ideias de progresso que são cúmplices de formas neoliberais de governança e de forças de concorrência de livre mercado. Tal conceito de "desenvolvimento" global tem fé nos poderes praticamente sem fronteiras da inovação tecnológica e das comunicações globais. [...] Ao celebrar uma "cultura mundial" ou "mercados mundiais", esse modo de cosmopolitismo se move rápida e seletivamente de uma ilha de prosperidade para outro terreno de produtividade tecnológica, visivelmente prestando pouca atenção à desigualdade persistente e à miséria produzida por esses desenvolvimento desigual e irregular.
O autor segue propondo que a globalização tem que começar em casa e que as nações precisam lidar com suas diferenças internas, como os "povos aborígenes da Austrália", com o difícil balanceamento entre a igualdade e o direito à diferença.
Para meu livro, interessa enfatizar que aquele cosmopolitismo citado depende da produção da desigualdade persistente. Nesse sentido, o Brasil está na crista da onda, encontrando no extermínio novas formas de lucro nos renovados ataques aos povos indígenas, na extinção de direitos sociais, na impunidade oficialmente celebrada de chacinas, o narcopentecostalismo que segue atacando a liberdade religiosa sob a indiferença das autoridades, especialmente no Rio de Janeiro.
A política exterior do país afinou-se pelo mesmo diapasão: entre outros exemplos, o assédio de uma embaixadora na ONU contra um autoexilado brasileiro, Jean Wyllys, (reeleito deputado federal, deixou o país em razão das ameaças de morte feitas por bolsonaristas), e o alinhamento aos Estados mais retrógrados contra os direitos das mulheres.
O Brasil, porém, neste livro é antes meu ponto de vista do que meu assunto, ao contrário do que fiz em Canção de ninar com fuzis.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Cosmopolitismo e barbárie

No blogue, transcrevo parte das leituras que faço para o livro. Cito agora, do grande historiador que morreu no dia primeiro de julho deste ano, António Manuel Hespanha, esta passagem de Cultura jurídica europeia: Síntese de um milénio (Coimbra: Almedina, 2012):
Na Europa, o projeto cosmopolita levantou outro tipo de problemas [...] a criação de um direito doutrinal cosmopolita aceitável por um conjunto de culturas jurídicas vernaculares ainda muito diversas conduziu esse projeto a um formalismo extremo [...] em que comuns eram quase apenas os quadros conceitos abstratos. O que fez com que o sistema de direito global fosse tão vazio de conteúdos daqueles que têm realmente a ver com a vida concreta das pessoas que não oferecia qualquer garantia contra normas jurídicas  de conteúdos chocantes [....] Isso aconteceu, nomeadamente, com os direitos de países desse centro da Europa que constituía o núcleo da cultura jurídica académica do Continente; mas que, apesar disso, admitiram normas que, do ponto de vista dos conteúdos, equivaliam à barbárie.
[...]
Nos dias de hoje, como vimos, o impulso no sentido de um direito cosmopolita à escala mais elevada corresponde àquilo que, com muita simplificação e unilateralismo, se tem designado pela emergência de uma "sociedade global".  Como esta sociedade não corresponde nem a nada de institucionalizado, nem sequer a nada que tenha reduzido os localismos (e os consequentes vernáculos), as tensões entre o cosmopolitismo jurídico e direitos vernaculares de diversas escalas agravaram-se ainda mais. 
As relações entre cosmopolitismo e barbárie continuam a necessitar de mais explorações, tendo em vista que a insuficiente institucionalização continua, e as tensões mencionadas permanecem.

sábado, 29 de junho de 2019

Introdução ao público VIII


VIII

Palco todo coberto de pedras.
Nenhuma sombra do humano.

A bomba explode na plateia.
De súbito, começa o teatro;

o público deixa sua condição de espectador,
torna-se acontecimento;

não são mais vítimas,
mas atores da própria dor
(ou seja, atores),
olham-se estupefatos
do próprio sangue;

(o teatro mantém o poder
de surpreender-te com teu próprio coração)
   
o público, sem saber, cumpre o roteiro
com fuga, pânico
e a imobilidade dos que não podem mais escapar;
o contraste cria o drama;

alguns deixam o prédio, mas não há lugar
onde não se encontrem a bomba
ou as pedras
que cobrem a superfície do possível;

e a possibilidade onipresente da explosão
deixa idênticos teatro e mundo.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Introdução ao público, IV a VII

IV

Balas e bombas ensinam a habitar a cidade,
a reconhecer vozes no estrangulamento,
a abrir as mãos para as mercadorias
regularem a circulação dos braços, que
se erguem, visíveis para a mira. Tiros se ouvem.


V

O público pegou sarna. Ou foi o contrário.
Não sabemos qual dos dois o remédio eliminará.


VI

As fotos de ursinhos compartilhadas por milhões
continuam a ser assunto privado. 
A redução de milhões
a fotos de ursinhos
é assunto público.


VII

Não foram comentados os insetos
que desceram sobre o fórum das nações
e o esburacaram das declarações até os aparelhos de escuta.

Ninguém compartilhou as fotos
das antenas que se mexiam no fórum das nações
esburacado dos vetos à segurança até as garrafas de vinho
e captavam o pensamento do mundo.

O fórum das nações
devolvido a sua vocação
sob seis patas multiplicadas
e ninguém o repercutiu
nas redes agora mudas
no público agora escasso
por jamais poder voar
ao contrário das larvas
depositadas nos buracos
do fórum das nações.

Não acabou o espetáculo;
as larvas ainda voarão, e o público
não foi treinado para agir em casos como este.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

Introdução ao público, I a III


...

Venham ver! Cliquem aqui! Aproveitem!
Últimos dias da inteligência sobre a terra
ou os primeiros dias dos humanos.


I

Os cães trazem nos dentes
a garganta do público;

ela uiva, mas ainda não é cão;

e, se uiva, não é alguém, mas
uma forma de vida não autorizada.

   
II

– Que dia será ontem?
– Temos vaga na gestão de cemitérios.
– Lambeu tanto as grades
que a própria língua
passou a calar a liberdade.
– Os mortos podem trabalhar fora durante o dia?
– A fiança custa dois mil, o passaporte sai mais caro.
– Toda a indústria de entretenimento, antessala trancada da arte funerária.
– Aqui devemos abrir buracos.
Sabendo fazer isso, teremos emprego em toda parte.


III

O público ainda não foi adestrado
e contempla a jaula
como se lhe fosse exterior.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Nota sobre o projeto de criação do livro O desvio das gentes

O livro não existe ainda; ele está a ser preparado. O desvio das gentes, no momento em que escrevo esta nota, é um projeto de criação de um livro de poesia, apoiado pela Prefeitura da Cidade de São Paulo, que deve ser concluído em 2019.
Na tradição poética brasileira, podem ser encontradas algumas notáveis obras com preocupação cosmopolita. O Guesa, de Sousândrade, fez com que Wall Street e o sistema internacional do capitalismo entrassem na poesia nacional por meio de uma poética inovadora, muito à frente de seu tempo. Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade, e As metamorfoses, de Murilo Mendes, apenas para citar mais dois exemplos, também unem a experimentação formal com a investigação literária do mundo.
O projeto de O desvio das gentes, mais modestamente, buscava, a princípio, inserir-se nessa linha da poesia brasileira e com ela dialogar, privilegiando a polifonia com a presença de diversas vozes que irrompem no poema para instaurar divergências e diferentes visões de mundo.
A temática do cosmopolitismo, que abrange tanto a criação de espaços de ação na esfera internacional quanto a problemática dos direitos humanos, individuais e coletivos, possui relevância para as poéticas de hoje. É de notar que o título dialoga com a antiga expressão "direito das gentes", que tem origem no Império Romano (ius gentium) para se referir aos direitos dos diferentes povos que integravam aquele Império, e ainda é empregada nos dias de hoje para designar o que hoje geralmente se denomina de direito internacional público.
No entanto, escolhi tratar de algumas dessas questões pelo prisma do desvio, e não do que é "direito". Em primeiro lugar, por ter escolhido a poesia, que privilegia esses olhares oblíquos sobre a realidade. Para olhares direitos e diretos, temos a prosa. 
Se o olhar é um olhar diverso, os temas escolhidos também se marcam pelo desvio, como os refugiados e os clandestinos, em relação aos cidadãos e ao Estados.
Em um terceiro plano, o desvio das gentes acaba por redundar em um afastamento do humano: bactérias e vírus estão entre os personagens do livro, entre catástrofes climáticas e devastação ambiental.
No Código negro, livro de 2013, com seus cachorros, nos Cinco lugares da fúria, de 2008, com mosquitos e cupins, no Cálcio (2012) eu já tinha efetuado alguns desvios em relação ao humano. Pretendo fazê-lo novamente, desta vez com a marca da catástrofe.

Constelação pós-global, Adorno, Kant e Beethoven

Um dos "improvisos" da primeira parte de Quasi una fantasia , de Adorno trata do encontro entre Beethoven e Kant em Schiller, na N...